Na segunda metade da década noventa, quando o HIV/SIDA ainda constituía uma incógnita no seio da comunidade moçambicana, Hambene Cumbane juntou-se ao activismo comunitário com a intenção de consciencializar a camada juvenil sobre a prevenção e tratamento desta doença.

Na altura, ele era um adolescente inexperiente em busca de uma ocupação proveitosa.

“Era muito novo e não sabia que o activismo pudesse estar presente em toda minha vida”, afirma o activista, acrescentando que “ naquele tempo, muitas pessoas ficavam infectadas pelo HIV. Era bastante importante que se mobilizasse as pessoas para que se prevenissem.” 

Segundo o Inquérito Nacional sobre o Impacto do HIV/SIDA (Insida) do Ministério da Saúde (MISAU), Moçambique regista uma média diária de 364 novas infecções por HIV/SISA, juntando-se aos países mais afectados, depois de África do Sul, Nigéria e Rússia.

Antes de se juntar à Associação Kuyakana, Cumbane – como activista em prol da saúde – fez parte de diversas organizações da sociedade civil, nomeadamente: Centro de Colaboração em Saúde (CCS), Associação Moçambicana de Saúde Pública (AMOZAPO) e Associação Núcleo de Mavalane Contra Drogas.

“Juntei-me ao activismo por amor à camisola. Sempre andei em campanhas comunitárias, falando sobre o perigo das drogas e sobre a necessidade de nos prevenirmos de doenças sexualmente transmissíveis”, afirma o activista.

Actualmente, com 39 anos de idade – numa altura em que Moçambique é o quarto país do mundo com maior número de novas infecções por HIV/SIDA – Hambene Cumbane confessa ter-se juntando ao activismo após ter testado positivo.

Tendo descoberto que padecia deste vírus, disse a si mesmo que seguiria rigorosamente o tratamento, assim como consciencializar outros seropositivos que não se dedicam à terapia TARV.

“Há muitas pessoas seropositivas que não querem seguir o tratamento. Por isso, após ter descoberto que sou HIV-seropositivo, decidi dedicar as minhas forças a favor das pessoas que também têm o vírus do HIV”, afirma o activista, sublinhando que “ há muitos jovens que se escondem. Jovens que têm o HIV. Eu não tenho vergonha de dizer que sou seropositivo; quero que outras pessoas saibam que podem levar uma vida normal mesmo com esta doença.”    

Foi pela luta contra o HIV/SIDA que Hambene Cumbane – um homem alto e fisicamente robusto – juntou-se à Kuyakana, onde tem levado a cabo campanhas de sensibilização, tratamento e prevenção desta doença crónica.

“Trabalho em unidades sanitárias. Temos realizado campanhas em diferentes centros de saúde para que as pessoas não desistam de fazer o tratamento TARV”, argumenta o activista.

Cumbane, recorrendo à sua vigorante voz, critica severamente a actuação dos agentes de saúde, afirmando que têm maltratado os pacientes, encurralando-os em longas filas de espera e exigindo-lhes pagamentos ilícitos.

“Tenho visto que os profissionais de saúde maltratam muito os pacientes. Os pacientes ficam em longas filas à espera dos trabalhos dos profissionais”, afirma Cumbane, acrescentando que “os profissionais fazem cobranças ilícitas e, como se não bastasse, quebram o sigilo; eles não escondem a condição de saúde dos pacientes, todo o mundo fica a saber que um determinado paciente tem HIV.”

“Os utentes desistem do tratamento por falta de sigilo, assim como por outros motivos, tais como: morosidade no atendimento e ausência de alimentos. A desnutrição crônica é lamentável. Os pacientes têm clamado por uma cesta básica. Para alguns pacientes, os medicamentos são pesados. Muitos jovens não medicam quando têm fome e daí vem a morte”, sublinha.

Para além do comportamento dos profissionais de saúde, Cumbane observa para as infra-estruturas hospitalares com descontentamento, argumentando que não faz sentido que algumas unidades sanitárias não tenham casas de banho em bom estado, ou torneiras preparadas para o abastecimento de água.

“Não há casas de banho em bom estado, nem torneiras. A falta de higiene é muito lamentável, há falta de latas de lixo… algodões encontram-se espalhados de qualquer maneira, depois de terem sido usados”, afirma a fonte, alertando que “se deve mudar este cenário, assim não dá.” 

Para Cumbane, a fraca divulgação de informação, a ausência de cortesia dos profissionais e o contínuo tratamento desumano também constituem os principais problemas que enfermam o Sistema Nacional de Saúde (SNS).

“Há falta de informação nos hospitais. Os utentes não estão bem informados sobre os seus direitos e deveres. As unidades sanitárias não são claras na divulgação de informação sobre a prevenção de certas doenças. Há também muita falta de cortesia, o tratamento não é humanizado e há muita quebra de sigilo… os profissionais quebram o sigilo e isso acaba contribuindo para que alguns seropositivos desistam do tratamento.”    

Para se minimizar os problemas que enfermam o sector da saúde, Cumbane defende a submissão de uma petição a instâncias superiores para se auscultar os provedores de saúde.

Todos os dias, Hambene sai de casa às cinco horas da manhã para se fazer presente ao centro de saúde às sete horas, momento em que arrancam as actividades.

Casado e pai de um rapaz de dezasseis anos de idade, Cumbane é um batalhador que cultiva os dias pelo bem-estar da família. Formado em eletricidade industrial – quando não se encontra a exercer o activismo – Cumbane dedica-se a biscastes diversos, tais como eletricidade, construção civil e canalização de água.

“Quando os projectos findam, faço os meus biscates como técnico de eletricidade, assim como técnico de frio e climatização. Também sou canalizador. Uma vez que os subsídios de transporte e comunicação não são suficientes para me fazer ao centro de saúde, poupo as minhas moedas para as despesas diárias, assim como para cuidar das minhas despesas em casa”, revela o activista.        

Em jeito de conclusão, Cumbane afirma que “como activista, gostaria que mais moçambicanos aderissem ao tratamento. Temos que parar de desleixar a nossa própria vida. Enquanto seropositivos, devemos evitar o excessivo consumo de álcool e devemos evitar perder noites. E a vida continua.”

Em Moçambique, há cerca de dois milhões de pessoas que vivem com o HIV/SIDA, e cerca da metade não tem acesso ao tratamento. 

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