Apesar da divulgação diária de números relativos a novas infecções, internamentos, óbitos, casos de recuperados, casos activos, assim como testes realizados, dados mais profundos sobre a gestão da pandemia da Covid-19 continuam pouco acessíveis em Moçambique.

As poucas informações, publicadas pelo Ministério da Saúde (MISAU), ilustram graves deficiências do Sistema Nacional de Saúde (SNS) na gestão da pandemia, pouco mais de um ano, após ter-se anunciado o primeiro caso.

Na primeira vaga, o sector da saúde sofreu uma ligeira pressão e o governo justificou-se afirmando que carecia alguma preparação para responder ao problema.

Com a eclosão da segunda vaga, aparentemente nenhuma lição se tirou da primeira. A pressão, que já havia sido prevista, encontrou o SNS despreparado, mais uma vez.

Actualmente, Moçambique assiste à terceira onda que – à semelhança das outras vagas – questiona a capacidade do SNS na mobilização de mecanismos para se fazer face à pandemia.

Vejamos que a Cidade e Província de Maputo – regiões que mais contribuem com novas infecções diárias e internamentos – têm apenas 623 camas, das quais 40 encontram-se na Província de Maputo e 583 na Cidade do mesmo nome.

Por isso, em 19 dias da terceira vaga – tida como a mais severa, com uma média de mil casos de infecções e vinte óbitos diários – o MISAU fez soar o alarme. Na altura, há 20 de Julho, estavam lotadas as camas das unidades hospitalares que lidam com a Covid-19 Província de Maputo. A Cidade de Maputo, por sua vez, estava com 57% das camas ocupadas.

Em poucos dias, o cenário piorou. Do Hospital Central de Maputo começaram a chegar relatos de que pacientes com Covid-19 a partilham as mesmas camas, uma situação causada pela falta de espaço no Centro Transitório. Sobre o assunto, a Directora Nacional de Assistência Médica, Luísa Panguene, não desmentiu, nem aceitou. Ela disse, em declarações à imprensa, que “pode ser possível devido à pressão”.

 “70% dos pacientes com o novo Coronavírus chegavam às unidades sanitárias em estado grave”, afirmou a directora, repetindo a habitual expressão, “vamos trabalhar para resolver o problema.”

O que se vive em Maputo assemelha-se é um espelho do cenário que assiste em todo o país. Tete – tida como porta de entrada da variante Delta e com capacidade de 38 camas – sempre esteve à beira do colapso, desde o início da terceira vaga.

Ademais, um cenário pior assiste-se em Sofala. Devido a fraquezas e pressões que caracterizam o sector, há médicos que assistem os pacientes positivos ao domicílio.

A denúncia deste facto foi feita por quem supostamente teria o papel de responder ao problema: a Secretária de Estado de Sofala, Stela Zeca. A dirigente avançou tratar-se de, “pessoas positivas que permanecem nas suas residências por receio de se dirigirem às unidades sanitárias para o devido seguimento. São pessoas que dispõem de condições para atendimento ao domicílio”.

A dirigente salientou, entretanto, que esses casos, “resultam em mortes fora das unidades sanitárias.”

Com os argumentos da governante, surge a seguinte reflexão: as pessoas não confiam na resposta do SNS. Várias questões carecem de resposta: “Quem e quantas são essas pessoas? Por quem são atendidas? De onde sai o material para antedê-las ao domicílio? O atendimento de casos de Covid-19 é permitido? Será este modelo (atendimento ao domicílio) uma saída para a lotação dos centros de internamento? Que riscos isto representa?”

De todas as dúvidas, talvez as maiores sejam as seguintes: quando é que o sector da saúde estará minimamente preparado? Qual é a actual capacidade de internamento? O que foi feito, sob ponto de vista de preparação, durante os períodos “pouco tensos” para garantir estabilidade na resposta à Covid-19?

É um cenário dramático, visível num sector que recebeu 79.540.347,59 USD, sendo 43.894.897 USD em numerário, e 35.645.450,98 USD em espécie. O MISAU precisa de se explicar.

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