Quando se identificou o primeiro caso positivo da Covid-19, em Moçambique, não se pensou que a ansiedade e o stress assombrariam os profissionais de saúde, que diariamente lidam com pacientes que se fazem à unidade sanitária. 

Em Moçambique, o primeiro caso da Covid-19 foi identificado em Março de 2020. Na altura, não se pensava na possibilidade de o vírus alcançar um elevado número de pessoas, a ponto de o Sistema Nacional de Saúde (SNS) estar à beira de um colapso. Registou-se, até então, 149.207 casos positivos de Covid-19 em todo o país, desde que se identificara o primeiro caso.

Adriano Pelembe, enfermeiro em exercício no Hospital Provincial de Maputo, lida com esta nova realidade condicionada pela Covid-19. No seu local de trabalho, Pelembe recebe diariamente vários pacientes, numa altura em que se deve evitar o contacto físico.

“O simples facto de sair de casa”, conta o enfermeiro, com 6 anos de experiência, “já constitui um stress nos dias de hoje.”

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 10% do pessoal do médico adoece em decorrência de seu exercício profissional nesta pandemia. Em Moçambique, cerca de 4 mil profissionais de saúde foram infectados pelo vírus.

Enquanto agente de saúde, o maior medo de Pelembe é ser contaminado e, inconscientemente, contaminar a sua família.

“Penso na minha família. Temo regressar à casa e contamina-la. E tem aqui este facto psicológico que está sempre patente”, disse.

Apesar de tudo, o maior compromisso de Pelembe reside na assistência de centenas de pacientes que se fazem ao seu local de trabalho.

“Tenho interesse e amor pela minha área. Apesar deste cenário, sei que devemos, todos, procurar salvar as pessoas. A pessoa não deve sair do hospital da mesma forma como entrou ou até pior. É preciso que haja uma maior humanização”, conta.

Nesta altura da Covid-19, outro desafio apontado pelo enfermeiro está ligado aos equipamentos de protecção. Pelembe entende que o facto de os mesmos serem descartáveis coloca um maior desafio ao sector.

“O material entra, mas a demanda e o fluxo são maiores. A questão do material deixa-nos stressados. Não estou a dizer que não o recebemos. Recebemo-lo, sim. Mas imaginem. Hoje recebes 50 pares de luvas, mas, dentro de algumas horas deves, descartá-los. Amanhã vais receber, mas vais descartar em pouco tempo”, refere.

“Tínhamos de fazer mais de dez partos por dia, muitos dos quais complicados”

A primeira experiência de Pelembe com uma unidade sanitária deu-se no Posto Administrativo de Estaquinha, Província de Sofala. Distante das grandes urbes, o movimento de pessoas era reduzido nas ruas de Estaquinha. Não se via quase ninguém, mas do nada “víamos muitos pacientes no centro de saúde, sem sabermos a proveniência dos mesmos.”

Naquele local, Pelembe aprendeu como levar a cabo as suas actividades fora das grandes capitais.

“Enquanto em grandes capitais, dificilmente és convocado a regressar ao hospital, depois de se cumprir o dia, em Estaquinha era diferente”, afirma o profissional.

“Todos os dias, ao concluirmos a nossa actividade, regressávamos a casa, mas depois vinham chamar-nos. Precisavam de nós e não podíamos abandonar os doentes. Regressávamos ao centro de saúde para cuidar das pessoas”, lembra.

Do trabalho em Estaquinha, Pelembre lembra-se igualmente, com muita satisfação, o facto de “não termos tido descanso.”

“Tínhamos de responder a qualquer caso a qualquer hora. Por dia, por exemplo, fazíamos mais de dez partos. Alguns complicados, mas conseguíamos estabilizá-los”, acrescentou.

Recebíamos medicamentos trimestralmente e estes eram apresentados à comunidade

De Estaquinha, Pelembe ainda se recorda dos encontros com a comunidade para a apresentação dos medicamentos recebidos.

“Recebíamo-los trimestralmente e eram apresentados à comunidade. A vantagem disso é que a comunidade ficava a saber que existia tal medicamento”, afirma a fonte.

Pelembe, ao longo da sua jornada em Estaquinha, gostava mais do convívio com os pacientes.

 “As pessoas não ficam à espera de acontecimentos negativos para elogiar os teus trabalhos dentro do centro. O nível de reconhecimento dos profissionais de saúde, naquele ponto, é elevado”, disse.

Quando regressou à cidade, o enfermeiro apercebeu-se da existência da grande diferença entre a vida urbana e campesina. Há doenças típicas do campo, que nunca chegam à cidade. Assim sendo, o enfermeiro teve de aprender afincadamente a lidar com tais doenças, procurando sempre o bem-estar dos pacientes.

Um Nómada na Enfermagem

O amor pela enfermagem sempre colocou Pelembe distante de casa. Natural de Maputo, mudou-se com os pais para Gaza onde teve a sua infância. Entretanto, rumou para Beira, onde cursou enfermagem.

Numa tarde, depois de regressar de uma partida de futebol com amigos, lembra-se; “os nossos pais colocaram-nos a proposta de ir estudar para Beira. Não tivemos dois dias sequer para pensar. Aceitámos.”

Apesar de ter estado a estudar na Beira com a irmã, igualmente estudante de enfermagem, a saudade de casa sempre manifestou-se. Enquanto ainda procurava integra-se na gestão da saúde de Gaza, foi obrigado a regressar a Sofala.

“Mais uma vez, estava fora de casa. Beira tornara-se minha casa e, naquele momento, tive que deixar essa segunda casa para ir a uma terceira casa. Isso traz desafios em termos de socialização. Isso criou em mim a cultura de atender as pessoas sem olhar para as classes sociais.”

Volvidos todos estes anos, ele aconselha os profissionais de saúde a proporcionarem serviços condignos ao utente, envidando esforços para o normal o funcionamento das unidades sanitárias.

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