No Centro de Saúde 1º de Maio, na cidade de Maputo, no meio à falsa ideia de que tudo corre bem na capital do país, há cidadãos que enfrentam dificuldades para adquirir medicamentos.

O cenário vivido por estes cidadãos evidencia a pobreza que se esconde aos olhos de muitos cidadãos que nem sequer imaginam que em Maputo existem os mais carenciados, cujas condições os impedem de comparar medicamentos.

Em Moçambique, os medicamentos, no sector público de saúde, custam 5 meticais – uma quantia muito abaixo de 1 dólar. Mas mesmo assim, ainda há cidadãos sem condições para comprá-los.

Muitos deles encontram-se nas filas longas das Unidades Sanitárias. Às primeiras horas do dia, misturam-se com aqueles que, além dos dois meticais para a consulta, têm mais algum valor. 

As dificuldades destes utentes têm sido presenciadas por Ribeiro Adolfo José Roger, activista de 25 anos de idade, associado à Kutenga.

“Há muita gente que vem aqui, ao centro de saúde, e não tem dinheiro para comprar medicamentos”, lamenta o activista, que já está acostumado à essa realidade que, entretanto, lhe causa choque.

As farmácias privadas, fora das Unidades Sanitárias, estipulam preços mais elevados e, neste cenário, o activista questiona, “ pode alguém, que não consegue tirar cinco meticais aqui [no hospital público], comprar outros medicamentos fora [na farmácia privada]?”

“Sei que muitos não sabem disso. Mas acontece aqui na cidade de Maputo”, conta Ribeiro, sublinhando o seguinte: “imaginem só como deve ser fora de Maputo.”

Quando o activista – que se dedica aos trabalhos sociais há dez anos – identifica pacientes e doentes sem condições para comprar medicamentos, ele os leva ao médico e põe-se explicar a situação dos mesmos.

Ao se aperceberem que se trata de alguém sem condições pra comprar medicamentos, “os médicos têm ajudado bastante. Têm sido sensíveis a este tipo de situações.”

Aliás, é mesmo para fora de Maputo – distante das correrias do dia-a-dia típicos das grandes capitais – que o activista deseja ir. Lá onde as dificuldades, e sobretudo a falta de acesso à informação, são evidentes.

“Aqui, em Maputo, tu paras na rua e mostras uma criança um preservativo, ela sabe o que é aquilo. As crianças e adolescentes têm acesso à informação. Têm celulares. Mas se fores a uma localidade fora e colocares a mesma questão a uma criança, ela não te pode responder”, lamenta.

OS DIAS COM DOENTES TUBERCULOSOS

“Muitos preferiam o trabalho às consultas. Então, para não os perdermos, fomos às suas residências”

Há três anos que Ribeiro Adolfo José Roger deixa o conforto da sua cama muito cedo, concretamente às quatro horas da madrugada.

Do lado de fora da sua residência, nas ruas e becos de Maxaquene, existem vários perigos. Mas o medo do perigo, às vezes, é superado pelo desejo de ajudar o doente que padece de tuberculose.

Em suas mãos, Ribeiro costumava carregar uma pequena caixa térmica, fazendo longas distâncias, ia ao encontro dos pacientes nas suas casas, para aconselhá-los e judiá-los a superar a enfermidade. Esse percurso, dentro da cidade, devia ser feito a pé, ou através de uma viatura privada, para que se evitasse que o activista mantivesse contacto com outras pessoas.

“Algumas dessas pessoas tinham empregos e preferiam faltar ao hospital para ir ao trabalho. Diziam que os seus patrões não entenderiam e, por isso, sofreriam descontos salariais. Então, eu preferia ia a casa delas, pois acreditava que era a melhor opção”, disse.

Neste percurso, Rogério ajudou muitas pessoas que se encontravam debilitadas. Fez amizades. A relação que ele mantém, hoje em dia com os pacientes, transcende a mera ligação de um paciente e um activista.

“É muito mais do que isso, por isso as pessoas tratam-me como filho e irmão”, refere o activista, oriundo da província de Sofala, centro de Moçambique.

Mas nesse percurso, nem tudo lhe corre bem. À mesma altura que os dias bons chegam, os maus também batem à porta.  Geralmente, esses dias são os de morte ou de pacientes que deixam de medicar.

“Fico extremamente triste, e às vezes irritado, quando um doente, que apresenta melhorias, abandona a medicação. Isso frustra-me, mas depois sou chamado a ir conversar com ele e mostrar-lhe que está a cometer um erro, um erro que lhe pode custar a vida”, acrescenta.

A perda de pacientes é um dos piores momentos do seu percurso.

“Tive uma paciente que era associada. Tinha TB e HIV. Lutámos muito para a sua melhoria. E ela, de facto, melhorou, mas um dia recebi uma chamada dela. Ela disse que me queria ver e falar comigo”, recorda.

Naquele dia, Ribeiro encontrava-se no distrito de Marracuene, em Maputo, e só iria ao encontro da paciente, assim que concluísse as suas actividades. Ela insistiu com ligações telefónicas e o activista acabou cedendo, pondo-se ao encontro dela. Mas inesperadamente, mais uma chamada entrou anunciando a sua morte, “o celular caiu-me das mãos e chorei.”

Os momentos maus não eram apenas feitos de perda de doentes. Eram e ainda são marcados de agressões e ameaças contra os activistas.

“Um senhor com tuberculose ameaçou-me espancar. Quando tentei atravessar a rua, ele colocou um barrote e, parando em frente, disse que eu não devia passar. O meu primo que também é activista foi espancado”, lamenta.

Ele acrescentou que, “o senhor tinha tuberculose e não queria que sua esposa soubesse.”

COMO TUDO COMEÇOU?

“Não cabia na minha mente como é que uma pessoa pode abusar sexualmente uma menor”

Em 2010, no pátio da Escola Primária Completa II Grau de Maconde, no bairro da Munhava, depois de uma colega revelar que sofria de abuso sexual, Ribeiro decidiu juntar-se ao activismo.

Ribeiro ainda se lembra de como a colega se comportava. Temia qualquer contacto com rapazes, durante as aulas de Educação Física. À primeira tentativa de se aproximar aos colegas, ela fugia.

“Depois da conversa com ela, apercebi-me que não cabia na minha mente como é que uma pessoa pode abusar sexualmente de uma menor.”

O pedófilo da menina em alusão era o seu padrasto.

Depois de ter ouvido o depoimento da vítima do estupro, Rogério decidiu, a partir daquele mesmo dia, pautar pelo activismo e, com o tempo, foi tendo mais certeza de que faria bem a si mesmo ajudando os necessitados e, nos dias actuais, ele deseja continuar como activista para, “ajudar os indefesos.”

Passados mais de dez anos, ele nunca mais viu a colega, mas já assistiu a cenas idênticas ao estupro que a colega sofrera nas mãos do padrasto.

“Este é o caminho que decidi seguir. E estou satisfeito”, conta.

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