A última imagem que muitos pacientes, internados em unidades sanitárias moçambicanas,  tiveram é de uma enfermeira como Abda Bangal, que por amar a sua profissão, lutava para salvá-los as vidas. O que muitos cidadãos não sabem é que essas mortes causam dor.

Entre dor e agonia, resultante de acidentes graves, muitos pacientes perderam a vida nas mãos da Abda Bangal, enfermeira em exercício há sete anos.

Neste percurso, Abda Bangal afirma ter presenciado diversas perdas de vidas humanas, mas, por outro lado, ela sublinha que também salvara  milhares. Por conta destes acontecimentos, a profissonal defende a necessidade de os enfermeiros passarem ter um acompanhamento psicológico.

Durante o desabafo, a enfermeira lembra-se de uma das primeiras pacientes da sua carreira, que recebera os seus cuidados para, mais tarde,  perder a vida, após não ter resistido à enfermidade. A paciente em causa era uma jovem que, durante o atendimento, manifestara o seu contentamento  ao ser assistida pela enfeirmeira Bangal.  

“Cuidei tanto dela. E marcou-me muito, pois ela estava numa fase terminal. Mas ela depois perdeu  a vida. Naquele dia, notei que não é fácil ser enfermeira.”

Naquele momento, com a paciente debilitada na cama, Adba conta que se tornara em tudo. Além de enfermeira, acrescenta ela, “tornamo-nos em psicólogos, amigos, familiares, irmãos.”

Esta foi uma das mortes mais marcantes da vida profissional de Abda. Depois da morte da utente, revela a enfermeira, o mais complicado é informar os familiares do mesmo que o ente querido perdeu a vida. Aí é preciso ser mais do que um enfermeiro, ou seja, aprende-se a ser psicólogo.

“Há mortes que não conseguimos lidar com elas. Fechamos os olhos e pensamos: o que eu devia ter feito para salvar aquela pessoa”, conta.

Do sonho de ser militar para enfermagem

Em 2010, quando Abda Bangal decidiu fazer o curso superior de enfermagem em Maputo, já tinha o peso da idade às costas. Nessa altura, nem mesmo os filhos por criar, nem o esposo, e muito menos os discursos desmotivadores, de uma parte da sociedade, levaram-na a desistir do foco de se formar para salvar vidas. Tinha 35 anos de idade.

Por causa dessa persistência, ela conseguiu concluir o curso de enfermagem no tempo determinado, de quatro anos.

“Há pessoas que achavam que eu estava fazendo o curso apenas para ter o nível superior. E nessa altura, muitas dessas pessoas questionavam o meu interesse pelo curso. Procuraram desmotivar-me”, contou.

Mas o apoio do esposo e da família foi preponderante para que ela não desistisse, e para que continuasse com os estudos até ao fim, “tive muito, muito apoio do meu esposo.”

Mas este não era o seu sonho de infância. Durante a guerra civil dos 16 anos,  um dia, um grupo de militares chegara à sua escola e dera alguns ensinamentos básicos de auto-protecção.

“Eles ensinaram-nos a aplacar e escondermo-nos do inimigo em momentos de ataques. Aquilo não mais saiu da minha mente, de tal forma que, em 2007, tentei concorrer para o serviço militar, mas fui reprovada. Fiquei desmotivada.”

“Ser enfermeiro é a forma mais elevada de expressar amor”

Um tempo depois, com a mãe-avó adoentada, Abda queria cuidar dela. Tinha percebido que aquele era um mecanismo de demonstração de amor às pessoas.

“Por isso, comecei a cuidar da minha mãe-avó. Quando ela perdeu a vida, percebi que era aquilo de que eu deveria fazer. Cuidar dos doentes é a maneira mais elevada de demonstrar o nosso amor pelo próximo.”

Neste percurso, a enfermeira já ajudou centenas de pessoas que chegaram às suas mãos em estado grave e isso traz-lhe imensa felicidade.

Ela conta que não mudaria de profissão, “se voltasse atrás faria enfermaria novamente.”

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