Entre as cadeias montanhosas do Distrito de Changara, na Província de Tete, centro do Moçambique , correm boatos sobre a ineficácia da vacina da Covid-19, numa província onde cerca de três mil pessoas testaram positivo.  

Segundo os dados do Ministério da Saúde (MISAU), um total de 16 pessoas perderam a vida para a Covid-19 e 3.118 foram dadas como positivas.

“Um dos boatos reside no facto de se dizer que as vacinas são um veículo de propagação da doença e não antídotos de imunização da população”, conta Vicente Fulede, activista comunitário da organização que se denomina Acção para Desenvolvimento Social (ADS).

Enquanto uns disseminam informações sem bases científicas sobre a vacina da Covid-19, Fulede toma um posicionamento oposto, com o objectivo de, pelo menos, divulgar informações com fiabilidade científica.

“Por causa desta situação, algumas pessoas das comunidades fogem quando nos vêem, devido a boatos que rondam sobre a Covid-19”, revelou Vicente, acrescentando que é um desafio enorme convencer a população que a intenção dos activistas  não é fazer mal às comunidades senão ajudá-las. 

Segundo o activista, esta não é a primeira vez em que os profissionais da saúde lidam com boatos, visto que, nas comunidades, surgem sempre vozes a descredibilizarem as informações propagadas pelas autoridades competentes na área de saúde.

“Este não é um cenário novo”, disse Fulede –que trabalha como activista há pouco mais de três anos – tendo estado a desenvolver actividades relativas aos  primeiros socorros nas comunidades –, facto que lhe enche de orgulho, por contribuir para o bem-estar das pessoas.

Para se exercer o activismo comunitário, há que se ter um robusto coração e uma forte capacidade de enfrentar barreiras de origens diversa. O activista – faça calor, chuva ou frio – abandona a sua zona de conforto para dar assistência aos doentes necessitados.

Mesmo existindo barreiras e dificuldades imensas, Fulede afirma que adora exercer esta actividade porque através da mesma “consigo ajudar a minha família e a comunidade a lidarem com os primeiros socorros na área de saúde, entendendo muitas coisas.”

FAÇO ENTREVISTAS AOS DOENTES CRÓNICOS NAS COMUNIDADES E CONFRONTO OS RESPONSÁVEIS DAS UNIDADES SANITÁRIAS, COMO FORMA DE CULTIVAR A MELHORIA DA QUALIDADE DOS SERVIÇOS PRESTADOS

Sem se deixar desanimar com as longas distâncias que tem de percorrer para exercer a sua actividade, Fulede dirige-se diariamente à unidade sanitária ou vai ao encontro dos doentes nas comunidades no interior do Distrito de Changara, mais concretamente na localidade de Dzunga.

Nas comunidades, o activista tem levado a cabo trabalhos de sensibilização contra as sonantes doenças crónicas, nomeadamente, HIV, tuberculose e, actualmente, contra a Covid-19.

“Os nossos trabalhos visam prevenir e combater à Covid-19, assim como aconselhar e incentivar os que padecem do HIV a prosseguirem com o tratamento”, afirma Fulede.  

Para além de sensibilizar as pessoas sobre a ocorrência de diversas enfermidades, Fulede tem entrevistado pessoas, assim como tem monitorado os serviços prestados às unidades sanitárias, na intenção de saber se os doentes crónicos são ou não atendidos condignamente.

“Também faço entrevistas aos doentes crónicos nas comunidades e confronto os responsáveis das unidades sanitárias, como forma de cultivar a melhoria da qualidade dos serviços prestados”, acrescentou o activista.

Neste momento, Vicente Fulede trabalha em duas iniciativas na área de saúde, nomeadamente, no Projecto Sou Cidadão, na monitoria dos serviços de saúde através de diálogos comunitários e  documentação de barreiras institucionais impostas pela situação de COVID19 –, que afectam a prestação de serviços de saúde de qualidade a doentes crónicos – um programa impulsionado pelo Observatório Cidadão para Saúde (OCS), em parceria com activistas comunitários de saúde, que colaboram com várias Organizações de Base Comunitária no país.

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