A enfermeira moçambicana Adélia Nacucula, de 30 anos, percorre uma distância correspondente a mais de duas horas para se fazer ao Centro de Saúde de Matsékwa, no Distrito da Catembe, para assistir os pacientes que se fazem àquela unidade sanitária em busca de cuidados médicos.

A falta de condições nas instalações residenciais dos enfermeiros do Centro de Saúde de Matsékwe levaram-na a alugar uma residência. Distante de tudo, numa zona que em que escasseia meios de transporte, ela percorre longas distâncias a pé.

Neste percurso diário, que a enfermeira enfrenta há dois meses, lida com a típica terra arenosa de Catembe. Sob o sol ou chuvas intensas, ela traça estratégias sobre como incentivar a comunidade local a se fazer à unidade sanitária ainda nos primeiros sinais de alguma doença.

“As pessoas, aqui, chegam à unidade sanitária muito tarde. Às vezes em estado graves. Quando adoecem, visitam, primeiramente, um médico tradicional. Quando tudo falha, aproximam-se à unidade sanitária”, lamenta.

Um dia, enquanto Nacucula fazia o seu percurso normal de casa à unidade sanitária, foi interpelada por uma jovem.

“Tenho o meu vizinho acamado há meses. Não consegue andar e nem nada. Procurámos resolver isso de todas as formas possíveis, mas não conseguimos”, disse a jovem à enfermeira. Em seguida, a enfermeira prometeu visitar o paciente.

“A partir das 15 horas, aqui já não há pacientes à procura de cuidados. Aproveito esse momento para visitar os pacientes ao domicílio”, esclarece.

Chegada à residência do paciente, a enfermeira apercebeu-se que o estado deste era grave. Não reunindo condições para cuidar do doente, ela efectuou uma hamada ao Centro de Saúde da Catembe, para explicar ao director sobre a situação do paciente.

“Felizmente, o director atendeu e mandou uma equipa àquele local para que o paciente fosse assistido devidamente”

Os pés do paciente estavam todos cheios de pus e apresentavam uma tonalidade amarelecida.

“Procedeu-se com os cuidados necessários. Pedimos apoio à família do paciente para que esta lhe ajudasse a se aguentar até ao Centro de Saúde. Passaram-se duas semanas sem que tivéssemos informações sobre o paciente. Planeio ir novamente.”

Por isso, sempre que um grupo de pacientes se faz ao centro de saúde, ela aproveita o momento para dar palestras. As mensagens são as mesmas “aos primeiros sinais de uma doença, venham logo à unidade sanitária.”

A vida de Nacucula como enfermeira resume-se em atender os pacientes no local de trabalho, assim como nas suas residências. No entanto, “somente quando as pessoas me comunicam. É natural saber quem está doente. Sempre que posso, desloco-me à residência dos pacientes.”

“Faço tudo sozinha”

No Centro de Saúde de Matsékwa, Nacucula trabalha sozinha. Faz-se circular nos quatro compartimentos todos os dias. Da sala de tratamento parte para a triagem e, em seguida, para a farmácia.

“Acrescentando às duas horas que faço de casa até ao centro de saúde, por dia posso fazer cinco horas de tempo, caminhando dentro da unidade sanitária durante o processo de atendimento aos pacientes.”

Segundo a enfermeira, os casos que dão entrada ao centro de saúde não costumam ser graves. Entretanto, ela pergunta-se como é que os pacientes se tratarão, caso ela não esteja disponível para assisti-los.

“Na minha ausência, não sei ainda como isso vai ser. Estive doente uma vez, mas fui obrigada a ir ao trabalho. Recordo-me que recorri à automedicação e fiz-me ao centro, tinha de pensar nas pessoas. E, de facto, nesse dia havia muitos doentes.”

De acordo com a profissional, a principal barreira dos utentes reside na distância, visto que a unidade sanitária mais próxima está a, pelo menos, 3 quilómetros, numa região em que escasseiam transportes públicos. 

“Considero-me uma activista em matéria de planeamento familiar”

Nacucula é natural de Inhambane, concretamente em Mabote. Deixou para trás a sua própria casa, a família, o esposo e os dois filhos em busca da realização em enfermagem. Quando chegou a Maputo, trabalhou no Hospital Geral José Macamo. De lá, foi indicada para Catembe. Por isso, no seu curto percurso profissional, ela já percebeu que sempre será “nómada”.

“Estou sempre deixando tudo para trás para ir em busca do meu sonho. Deixei a minha terra natal. Deixei os meus filhos. Deixei, inclusive, os amigos que fiz na Cidade de Maputo. Mas dói mais ter deixado os meus filhos lá.”

Ela diz que o facto de ter nascido numa região onde não se fala sobre planeamento familiar, quando chegou a Catembe e viu um cenário idêntico de onde é natural, viu-se na obrigação de fazer palestras nas comunidades sobre o planeamento familiar.

“Estamos dentro de Maputo, mas parece que estamos fora. Há ainda falta de informação aqui dentro. As pessoas não sabem disso. Precisamos de trabalho aqui também”, conta.

O que o Observatório do Cidadão para Saúde (OCS) constatou?

Com quatro  compartimentos, um deles tem o seu tecto parcialmente danificado. Quando chove, um dos compartimentos que alberga geleiras de conservação de insumos de saúde, verte. Esta situação coloca em risco a vida dos pacientes, uma vez que – ao se ter os insumos danificados pela chuva – escasseiam medicamentos e outros materiais médicos. Por isso, defendemos a necessidade se de resolver esta situação de forma urgente.

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