Elisa Mussuei, activista de saúde ao serviço da Associação Kutenga, em Maputo, alerta para o risco de a concentração de todos os recursos no combate à Covid-19 poder criar altos índices de contaminação e, inclusive, mortes por HIV em Moçambique.

“Há uma hipótese de assistirmos a um aumento de casos de HIV pela falta de sensibilização”, alertou a activista de 25 anos de idade.

Em um ano de pandemia, Moçambique registou cerca de 200 mil casos positivos (dos quais mais de 70% correspondem ao número de pessoas recuperadas até às duas primeiras semanas de Agosto) e a morte de cerca de duas mil pessoas (por excesso).

“Há uma série de vantagens que deixamos de ter devido à concentração de esforços num único mal, que nos fez esquecer outros males que afectam a nossa sociedade”, afirma Mussuei.

Elisa lamenta o facto de não poder sair com frequência para sensibilizar as comunidades sobre a necessidade de se prevenirem contra o HIV/SIDA e outras doenças de transmissão sexual (DTS’s).

Assim sendo, a activista defende a necessidade de o decreto presidencial possibilitar a realização de encontros de sensibilização nas comunidades, onde a Associação Kutenga e outras associações realizam as suas actividades.

 “Podem não ser reuniões de 20 pessoas. Ainda que sejam de cinco, sabemos que a informação vai chegar”, diz.

Para Mussuei, “as pessoas precisam de ser sensibilizadas frequentemente. Se ficarmos um período longo, elas se esquecerão da prevenção. É possível que tenhamos um desastre no período pós-pandémico”, defende a activista.

A activista argumenta ainda que é compreensível que o governo queira evitar o alastramento da COVID-19, mas entende que deve haver, “coerência nas afirmações do Presidente da República e nas do Ministro da Saúde, quando dizem que, apesar da Covid-19, a resposta para outras doenças deve continuar”.

Mussuei acrescenta que o HIV/SIDA é uma pandemia que reside há muito mais tempo e que “até hoje obriga os pacientes a tomar antirretroviral e a não abandonar o tratamento. Há muitas restrições, até com os próprios líderes dos bairros tem sido muito difícil trabalhar, principalmente depois do decreto presidencial”, revela Elisa Mussuei.

Num outro desenvolvimento, ela diz que tenta, através do activismo, garantir que o direito à saúde chegue a todos.

 “Meu sonho é ver todas as pessoas com o direito à saúde. O meu maior desejo, no trabalho que desenvolvo, é constatar que os pacientes conhecem os seus direitos e deveres nos centros de saúde ou hospitais. Gostaria também que adolescentes e jovens pudessem estar mais informados sobre saúde sexual e reprodutiva e, por fim, mas não menos importante, gostaria de assistir a uma maior adesão aos serviços de testagem ao HIV.”

Ela quer também ver os profissionais de saúde mais cientes da sua responsabilidade.

Mussuei faz activismo nos centros de Saúde da Polana Caniço e 1º de Maio.

A sua associação tem trabalhado em diferentes zonas da Cidade de Maputo (Ka Maxaquene, Ka Mpfumu, Ka Munukwana), distrito de Manhiça (Província de Maputo) e Província de Gaza (Cidade de Xai-Xai, Chongoene e Chicualacuala).

Para Elisa, o trabalho dos activistas é extremamente importante, por ser personalizado.

“Na comunidade, todos se conhecem, e ter alguém conhecido a fazer o trabalho com os pacientes torna-se mais fácil e confortável.”

Para a fonte, é importante e melhor que se assista localmente os pacientes, para que mais à vontade se sintam.

 “É importante que nos foquemos em moçambicanos que vivem com o HIV. Este número aumenta a cada dia que passa.”

A activista afirma ainda que as longas distâncias percorridas pelos pacientes constituem barreiras para a busca de tratamento. Além disso, os custos de transporte, o longo tempo de espera no centro de saúde e a necessidade de se realizar outras actividades para o sustento da família também constituem barreira para os pacientes.

O seu objectivo principal é acompanhar os doentes na toma do anti-retroviral para que não desistam do tratamento.

Por outro lado, como forma também de diminuir a sobrecarga de trabalho das unidades sanitárias, a activista contribui para a melhoria da qualidade no tratamento aos doentes do HIV.

“A retenção dos pacientes em TARV é uma das maiores prioridades da Kutenga, no sentido de apoiar o Governo na implementação do programa de HIV no país. Uma das estratégias da Kutenga é também o envolvimento comunitário, trabalhando directamente com os líderes locais.”

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