A segunda fase da Vacinação Massiva terminou na semana passada em Moçambique. Até ao dia 19 de Agosto, haviam sido vacinadas 1.864.229 pessoas, contra cerca de 17 milhões de pessoas elegíveis para vacinar em todo o país, de acordo com o Plano Nacional de Vacinação (PNV).

Esta fase teve a particularidade de decorrer numa altura conturbada, sendo que Moçambique tem estado a registar elevados números de mortes diariamente, assistindo-se a uma média de 30 pessoas vitimadas mortalmente pela Covid-19 – assim como se registava o crescimento de número de contaminados, com aproximadamente mil infecções por dia.

Esta fase, entretanto, não é somente marcada pelo elevado número de mortes e contaminações. A mesma é também caracterizada pela falta de clareza e transparência no processo de vacinação.

Este cenário tem estado a colocar o Sistema Nacional de Saúde (SNS) à beira de um colapso, um facto que se evidencia através da falta de camas nas Unidades Sanitárias (US’s), assim como a falta de testes em várias unidades sanitárias do país. 

Esta segunda fase de vacinação não foi transparente, tendo o Observatório Cidadão para Saúde (OCS) destacado, entre vários aspectos, a ocorrência de cobranças ilícitas, escassez de comunicação e falta de brigadas móveis para a flexibilização do processo. Em algumas unidades sanitárias, cobrava-se um total de 1.000 meticais a quem quisesse tomar uma vacina contra a Covid-19. Por outro lado, por meio das próprias entidades governamentais, anunciou-se a venda de cartões de vacinação.

O OCS entende que o Ministério da Saúde (MISAU) deve tomar medidas com vista a acabar com estes actos que, para além de manchar o processo, colocam em causa o combate contra a Covid-19.

Era suposto que o MISAU tivesse olhado e avaliado os erros ocorridos na primeira fase, para que se não repetissem na segunda. Se assim tivesse sido, ter-se-ia preservado a vida de milhares de cidadãos e diminuído a propagação do vírus. É preciso que se crie uma comissão de controlo a actos ligados à corrupção e responsabilização de todos os envolvidos no processo.

Primeira fase: erros e soluções!

O Plano Nacional de Vacinação (PNV) previa, de entre várias actividades, a fixação de brigadas móveis em vários pontos do país, a fim de alcançar mais cidadãos. Este é um facto que não se assistiu em toda primeira fase de vacinação em Moçambique.

No âmbito deste plano, iniciado no dia 08 de março, tendo decorrido até ao dia 12 do mesmo mês, prevendo-se uma continuidade para 29 de Março a 02 de Abril, estava previsto que fossem fixadas brigadas móveis através das quais alcançar-se-ia mais cidadãos, sobretudo nas zonas mais recônditas.

O SNS devia ter alcançado zonas mais recônditas, onde residem pessoas mais necessitadas. Entretanto, tal realidade não se fez sentir, ignorando-se o princípio de que O PNV deve alcançar a todos, incluindo as camadas mais vulneráveis.

Uma boa parte da população vive longe dos centros de saúde. Então, quanto maior for a mobilidade, maior é o risco de propagação ou transmissão.

A solução seria colocar a capacidade de testagem próximo do cidadão, dado que a rápida detecção do vírus é também uma estratégia para inclusão de pacientes no tratamento e isolamento domiciliário, diminuindo-se, desta forma, a pressão que se verifica nos hospitais e nos transportes públicos, em que o cidadão se deve deslocar a mais de duas unidades sanitárias para, com outros transtornos, conseguir fazer o teste.

Escassez de insumos contribui para que não se tenha uma situação real do cenário

Esta fase é igualmente marcada pela escassez de testes. Refira-se, antes de mais, que o governo recebeu 79.540.347,59 USD, sendo 43.894.897 USD em numerário, e 35.645.450,98 USD em espécie.

A escassez de testes pode contribuir para que não se tenha uma situação real do cenário da Covid-19 em Moçambique. É preciso que o governo invista e crie mecanismos de aquisição de testes para o país, lutando sempre contra as vendas ilegais.

Em algumas unidades sanitárias da capital de Moçambique, o OCS constatou, por exemplo, que diariamente apenas são testadas 20 pessoas.

A questão que se coloca é: para onde vão os restantes cidadãos que não se podem submeter ao teste? Uma solução tem sido, por parte de alguns, “saltar” de hospital em hospital em busca de uma flexível testagem. Este cenário é lamentável num país em que a maior parte da polução vive com menos de 1 dólar por dia. Teria este cidadão capacidade de se fazer ao sector privado para testar?

Neste aspecto, o OCS insiste na necessidade de se envidar esforços com vista a ter-se mais testes. A massificação de testes pode ser uma solução.

A disponibilidade de insumos como: testes, máscaras, álcool e medicamentos, em quantidades suficientes e a preços acessíveis, tem um impacto positivo no plano de resposta à Covid-19. O contrário cria uma situação de incertezas. Sendo que o problema de insumos se verificou maioritariamente noutras províncias, fora da capital de Moçambique, é crucial que o MISAU leve a cabo um plano inclusivo de distribuição dos materiais.

Plano de comunicação pode ter falhado

A primeira fase da vacinação contra a Covid-9 foi marcada por uma abstenção de cerca de 23 mil pessoas, que teriam tomado a primeira dose e que, no entanto, não prosseguiram para a segunda.

Estes problemas, o MISAU pode resolver através da criação de um plano de comunicação mais eficaz que, de facto, consciencialize os cidadãos da necessidade de tomarem a vacina. Acreditamos igualmente há necessidade de se fazer uma monitoria e um seguimento mais sério dos vacinados, através da alocação de bragadas móveis.

Contudo, o combate contra a Covid-19 exige, da parte do governo, medidas mais profícuas, atingindo vários sectores, com maior enfoque para os transportes, onde, diariamente, assiste-se a cidadãos apinhados.

A questão que se coloca aqui é: O que o governo tem feito para erradicar as práticas corruptas neste processo? O que se tem feito com os profissionais envolvidos nestes casos?

Em Niassa, por exemplo, os locais de vacinação contra a Covid-19 não se encontram sinalizados. As pessoas recebem a informação por via de terceiros, não existindo, portanto, meios mais claros para o efeito.

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