Entre os corredores e assentos das unidades sanitárias em Maputo, Fátima Gujamo, activista de saúde há mais de dez anos, assistiu, nos primórdios de Março de 2020, à redução das consultas aos pacientes.

Não obstante estar-se num contexto pandémico marcado pela Covid-19, a activista afirma que as consultas, nos centros hospitalares, continuam lentas, sublinhando igualmente um problema recorrente no Sistema Nacional de Saúde.

“Faltam profissionais de saúde nas nossas Unidades Sanitárias (US).”

Num cenário destes, pacientes e utentes das US’s são as principais vítimas da falta de profissionais de saúde. Desta feita, Mugamo, activista da associação Pfuka Uhanya (expressão em língua Changana, que em português significa: Levanta-te e Vive), manifesta o seu descontentamento.  

“Preciso estar lá para levantar o outro (a moral do paciente) que pensa em desistir ou abandonar a fila por causa da morosidade no atendimento”, afirma a activista, acrescentando que, “o paciente precisa de ouvir a minha palestra para melhorar o seu tratamento Anti-retroviral.”

A activista, que iniciou a sua actvidade no Hospital Militar, depois de perder o marido para a tuberculose em 2009, lamenta o actual cenário que se assiste nas US’s moçambicanas.

Gujamo defende que a Covid-19 não trouxe problemas novos. Apenas veio expor as fragilidades do sistema nacional de saúde, algumas das quais se escondiam silenciosamente.

No seu posicionamento, a activista critica o rácio medico por paciente, a falta de equipamentos, entre outros problemas.

“Sempre assistimos a problemas neste sistema de saúde e agora, com a Covid-19, os mesmos problemas só pioraram e agora se revelam”, lamenta Gujamo.

Segundo activista, a Coviod-19 tem afectado imenso o funcionamento do sistema nacional de saúde, dado que os doentes crónicos foram obrigados a se fazer ao hospital, semestralmente, para as consultas.

“Isso fez com que alguns deles, mesmo sentido mal, tivessem medo de ir ao hospital”, alerta Gujamo.

Quero dar esperança aos outros

A vida de Gujamo, como activista, está ligada à perda do esposo. Ao perder o marido, ela decidiu dedicar-se ao activismo para ajudar pessoas que não dispõem de conhecimentos sobre várias doenças crónicas.

“Prestamos vários  apoios, desde o moral, o psicológico e o material, assim como ofertamos aos pacientes, em situação de vulnerabilidade, os produtos que os nossos parceiros têm doado”, acrescenta

Ao longo destes anos, ela tem visto outras pessoas, que como ela, além de não terem tido conhecimento sobre a doença, não tiveram o apoio da família.

“Ele foi vítima de tuberculose e lhe faltou apoio familiar e informação.”

Foi assim que em 2009, com a dor da perda do esposo, aos 28 anos de idade, decidiu mudar o rumo da sua vida. “Queria também aprender  mais e cuidar dos outros, e cuidar de mim e dos meus três filhos.”

Nesse percurso, a activista tem visto pessoas desesperadas e, às vezes, desnorteadas. Por isso, ela entende que a acção dos activistas deve continuar, havendo, entretanto, a necessidade de se apoiar o activismo.

“Quero ajudar aos doentes que precisam de orientação e uma palavra amiga para se manterem firmes no tratamento da enfermidade que enfrentam”, argumenta Gujamo.   

Fátima trabalha no Distrito Urbano Ka Maxaquene,  nos subúrbios da Cidade de Maputo, visitando frequentemente duas US, nomeadamente, o Centro de Saúde 1º de Maio e o Hospital Geral da Polana Caniço.

A activista, ao longo da sua explanação, disse ainda que o Observatório Cidadão para Saúde (OCS) tem desenvolvido uma relação positiva com o público, desenvolvendo um mecanismo de apoio e melhoria do Sistema Nacional de Saúde (SNS).

Entretanto, Gujamo lamenta a inexistência de recursos e meios para se chegar a unidade sanitária.

“A minha maior dificuldade está em chegar às unidades sanitária, na medida em que não tenho nenhum subsídio e, neste momento, não faço nenhum negócio que me possa apoiar nas despesas de transporte”, queixa-se a activista.

 A activista, residente no bairro de Patrice Lumumba, apanha, por amor à camisola, o machibombo  da Direcção de Saúde da Cidade de Maputo para poder chegar à US e desenvolver o seu trabalho.

“Algumas vezes, recusam-nos boleia alegando que o carro zela pelos funcionários do Estado, e não pelas ONG’s .”

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