O Hospital Central de Maputo (HCM) é uma unidade hospitalar do nível quarternário, sendo, deste modo, de referência a nível da cidade e província de Maputo, onde se registam actualmente maiores casos de pessoas contaminadas pela Covid-19.

Aquela unidade sanitária recebe utentes e doentes oriundos de outras províncias do Sul de Moçambique. Com o retorno às aulas, os níveis de contágio só vieram aumentar na cidade de Maputo que já havia atingido o nível de contaminação comunitária.

Num contexto em que se deve evitar enchentes por causa da propagação da Covid-19,  se tem assistido longas filas dos utentes que recorrem aos serviços de consultas externas, com maior destaque para cardiologia, psiquiatria, neurologia e endocrinologia.

Numa pesquisa de terreno realizada pelo Observatório do Cidadão para Saúde (OCS) constatou-se que os serviços que apresentam enchentes de pacientes de segunda à sexta-feira ficam encerrados aos finais de semana, à semelhança do que acontece com os serviços de  Laboratório de Análises Clínicas, numa altura em que se deve evitar aglomerados de pessoas.

O OCS entende que este cenário poderá contribuir para uma rápida propagação da pandemia da Covid-19, uma vez que as unidades sanitárias são potenciais focos de transmissão e contaminação de doenças. Diante deste cenário, o OCS acredita que pela decisão da adopção desta medida pelo HCM podem ser  levantadas as seguintes questões:

a) Qual é a lógica por de trás do encerramento destes serviços se saúde na maior unidade sanitária pública do país, onde serão recebidos doentes referenciados por outras unidades sanitárias de todas as províncias?

b) Porquê estes serviços não funcionam, excepcionalmente no HCM, aos sábados e domingos como forma de descongestionar o número de doentes que aflui de segunda à sexta-feira?

O Observatório do Cidadão para Saúde condena a ausência de esforço por parte do HCM para evitar aglomerados nos diferentes serviços de saúde, com destaque para doentes cardíacos e diabéticos que se apresentam como os mais vulneráveis à Covid-19 num momento em que Maputo está declarada como uma região onde ocorre a transmissão comunitária.

Por outro lado, os serviços de consultas externas funcionam das 8horas às 16horas, o que faz com que os pacientes tenham que se fazer muito cedo, propiciando assim aglomerados. O OCS constatou que os utentes que chegam depois das 10horas não conseguem entregar os seus processos, alegando-se que os mesmos se atrasaram à consulta.

Nas consultas ou controle de cardiologia, por exemplo, o Observatório do Cidadão para Saúde pôde aferir  que há pacientes que chegam ao hospital às 4horas da madrugada, contudo são atendidos às 14horas, simplesmente porque os médicos não estão nos gabinetes, alegando-se que os mesmos estão reunidos. Por causa desta atitude muitos doentes são deixados numa situação de abandono, muitos dos quais sem capacidade para se alimentarem durante o tempo de espera.

Ora, como é que os médicos de cardiologia se reúnem todos no horário de pico de atendimento aos pacientes?  Porquê os médicos não reúnem após as consultas, tendo em conta que as mesmas terminam às 17horas?    

Outro serviço indisponível aos finais de semana é o de Laboratório de Análises Clínicas do HCM onde pela demanda que se regista de segunda à sexta-feira, a fila de pessoas inicia do interior da unidade sanitária até ao exterior sem se respeitar o devido distanciamento social que se exige. Neste sector hospitalar, a situação apresenta-se como sendo mais grave, pois as enchentes devem-se a diversas razões: a) alguns pacientes são referenciados para fazer os exames médicos no HCM sendo eles provenientes de outras unidades sanitárias públicas de menor capacidade; b) outros pacientes provêm das clínica ou do atendimento hospitalar especial no HCM. E a maior parte dos doentes recebem atendimento nos vários serviços de saúde oferecidos pelo HCM. Apesar dos horários diferenciados no atendimento é inevitável ter a convergência de pacientes que vão marcar as análises, realizar exames médicos e levantar os resultados dos exames.

 À semelhança do Laboratório de Análises do HCM há vários serviços de disponibilização de equipamentos especializados para avaliação e controle de diversas enfermidades que também não estão disponíveis aos sábados e domingos no HCM sem a devida explicação plausível que justifique o encerramento destes serviços.

Para o OCS, o HCM deve rever a decisão de encerrar serviços de saúde aos finais de semana sem apresentar alternativas que vão de encontro com satisfação dos utentes em relação a prestação de serviços humanizados e de qualidade. Sabemos que devido à COVID-19 medidas foram tomadas para melhor organizar a oferta de serviços respeitando as normas de prevenção da COVID-19, mas se assiste há uma falta de controle rigoroso para que as normas sejam cumpridas para todas as áreas de serviços ali oferecidos.

Durante a nossa presença notamos igualmente que o HCM está num processo de reabilitação de alguns edifícios, o que de certa maneira tem criado constrangimentos para o operacionalização dos trabalhos no HCM, sobretudo no acto de orientação dos pacientes no interior das instalações. Por esse motivo, o OCS recomenda a direção do Hospital a afixar, à entrada do recinto, toda informação sobre os dias e horários dos serviços disponíveis aos utentes, assim como permitir que algumas consultas sejam marcadas por via remota, através de uma linha telefónica criada para este propósito. É nossa opinião que a introdução deste mecanismo, entre outros, poderá facilitar e flexibilizar o gerenciamento que vai culminar com a redução da afluência aos instalações dos serviços de saúde prestados no HCM.

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